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Páscoa sem fronteiras: da travessia da cruz à missão que atravessa o mundo

A narrativa da Páscoa cristã carrega um paradoxo geográfico: ela começa no ambiente fechado, escuro e estático de um túmulo e termina na imensidão das estradas do mundo. Como bem destaca o teólogo José Antonio Pagola em suas leituras dos Evangelhos, a ressurreição de Jesus não foi um evento para ser teorizado ou guardado em segredo, mas uma força propulsora que colocou a Igreja nascente em estado de êxodo. Crer no Ressuscitado exigia, necessariamente, pôr-se a caminho.

Para as Scalabrinianas, essa dinâmica de saída e travessia não é apenas um imperativo moral, mas a própria razão de sua existência e espiritualidade. Dedicadas ao serviço evangélico junto aos migrantes e refugiados, as Irmãs transformam a liturgia da Páscoa em uma mística diária: o carisma “lê” a esperança pascal não como uma espera passiva, mas como uma força que atua diretamente nas fronteiras mais vulneráveis da humanidade.

Em suas reflexões, Pagola frequentemente destaca o estado psicológico e espiritual dos discípulos após a morte de Jesus: eles estavam trancados, paralisados pelo medo, frustrados e sem horizonte. A Páscoa acontece quando Jesus atravessa essas portas trancadas e sopra sobre eles a paz e a coragem. Para o teólogo, crer na ressurreição é um ato de rebeldia contra o desespero; é a convicção de que nenhuma situação de morte é definitiva quando Deus está presente.

Essa mística da superação do medo é vital para o carisma scalabriniano. O migrante e o refugiado são, por excelência, pessoas que romperam com a paralisia. Deixar a própria pátria exige uma esperança violenta no futuro. As Irmãs, ao se inserirem nessa realidade, bebem dessa mesma fonte pascal: elas são chamadas a ser a presença que diz “não tenhais medo” no meio do caos das travessias e da burocracia das fronteiras.

Pagola dá uma importância ímpar aos relatos das aparições de Jesus, notando que Ele quase nunca aparece em locais sagrados, mas no cotidiano — pescando na praia, preparando o pão ou caminhando por uma estrada poeirenta. O episódio dos discípulos de Emaús (Lc 24) resume essa teologia: Jesus se aproxima como um forasteiro e caminha com os que estão em fuga.

Para as Scalabrinianas, Emaús não é apenas uma passagem bíblica, mas o mapa de sua missão. A congregação entende que o próprio Jesus “migrou” com a humanidade. Ao acolher o estrangeiro que bate à porta ou ao defendê-lo nas ruas, as Irmãs revivem a cena de Emaús. Elas escutam as dores do caminho, explicam a esperança e, acima de tudo, partilham o pão. A mística da Páscoa scalabriniana é a mística do encontro na fronteiras e estradas.

José Antonio Pagola cunhou uma expressão forte para definir a espiritualidade cristã: a “compaixão de olhos abertos”. Ele defende que Jesus não curava ou acolhia por obrigação religiosa, mas porque Seus olhos viam o sofrimento e Suas entranhas se comoviam.

As Scalabrinianas personificam essa compaixão de olhos abertos. Em um mundo que prefere fechar os olhos para a crise migratória global — ou enxergá-la apenas através de estatísticas e ameaças à segurança —, a espiritualidade pascal exige ver a pessoa humana por trás do passaporte. Celebrar a Páscoa, portanto, exige a coragem de enxergar a dignidade do ressuscitado brilhando na fragilidade do migrante.

A aproximação entre a teologia de Pagola e a missão das Scalabrinianas revela que a Páscoa é a festa da itinerância e da esperança radical. O túmulo vazio grita que a vida não pode ser aprisionada, e o carisma scalabriniano ecoa esse grito ao garantir que nenhum ser humano seja aprisionado pela exclusão ou pelo esquecimento nas fronteiras do mundo.

A Páscoa nos convida a sair dos nossos próprios túmulos de conforto e indiferença para nos tornarmos, a exemplo de Jesus e da ação das Irmãs, companheiros de travessia para todos os que buscam uma terra com a promessa da dignidade.

Por Wellington Barros, Doutor em Teologia

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