Humilitas. Uma única palavra latina, inscrita no brasão da família Borromeo, tornou-se o programa de vida de São Carlos e, por herança, um modo de ser das Irmãs Missionárias de São Carlos Borromeo – Scalabrinianas. Neste 4 de novembro, festa do patrono, vale perguntar o que essa palavra significou ontem, o que significa hoje e por que permanece para sempre?
Humildade, aqui, não é timidez nem desvalorização de si. Vem de humus, a terra: é a coragem de pisar o chão onde o outro está, de descer ao nível de quem sofre. Foi assim que Carlos Borromeo viveu, foi assim que Scalabrini a entendeu, e é assim que as Scalabrinianas são chamadas a vivê-la entre os migrantes e refugiados.
Ontem: a humildade de um cardeal que desceu ao chão
Carlos Borromeo nasceu em Arona, em 1538, numa das famílias mais poderosas da Lombardia. Aos 22 anos já era cardeal e homem de confiança do tio, o Papa Pio IV. Tinha tudo para viver o lema da família como mera divisa heráldica. Escolheu levá-lo a sério.
Sua humildade tomou três formas concretas. A primeira foi a renúncia: deixou a vida de corte em Roma para residir em Milão como arcebispo, desfez-se de bens e adotou uma vida austera. A segunda foi a proximidade: visitou a pé e a cavalo paróquias esquecidas, formou o clero, organizou a catequese do povo simples. A terceira foi a permanência na dor: na peste de 1576–1577, quando os poderosos fugiram, ele ficou, vendeu o que tinha para alimentar os famintos e visitou pessoalmente os doentes.
Morreu em 1584, aos 46 anos, consumido pelo serviço. O poder que recebera foi inteiramente gasto em favor dos outros: eis o sentido mais profundo de Humilitas.
Três séculos depois, outro bispo lombardo, João Batista Scalabrini, encontrou em Carlos o modelo de pastor que queria ser. Ao fundar os Missionários de São Carlos (1887) e as Irmãs Missionárias de São Carlos Borromeo (1895), confiou-os ao patrono e, com ele, ao seu lema. A humildade de Carlos tornou-se, assim, herança das Scalabrinianas.
O Humilitas de São Carlos não é um traço de caráter, mas o coração do Evangelho. Quem experimenta a grandeza de Deus reconhece os próprios limites; só quando se perde o sentido de Deus a humildade degenera em baixeza ou desprezo de si. O único caminho para o encontro com Deus, é o da simplicidade e da transparência.
Hoje: Humilitas nas estradas dos migrantes
As Scalabrinianas completaram 131 anos de fundação em 25 de outubro de 2026 e estão hoje em 27 países de quatro continentes. O mundo em que atuam é marcado por deslocamentos forçados, fronteiras que se fecham e discursos que tratam o migrante como ameaça. Nesse cenário, a humildade de São Carlos ganha rostos novos.
Descer até onde o outro está. A Scalabriniana não espera o migrante chegar a uma estrutura confortável: vai às fronteiras, aos abrigos, às periferias e às casas de passagem. Pisar o mesmo chão é a forma atual de Humilitas.
Caminhar com, e não apenas para. A humildade escuta antes de falar. Reconhece no migrante não um beneficiário, mas um sujeito, com história, saberes e fé próprios. Por isso, a missão hoje passa pelo protagonismo dos próprios migrantes e refugiados.
Ficar quando é difícil. Como Carlos na peste, as irmãs são chamadas a permanecer junto aos que sofrem novas “pestes”: xenofobia, tráfico de pessoas, exploração laboral, abandono de mulheres e crianças em deslocamento.
Servir sem se pôr no centro. A humildade também se vive em comunidade e em rede: com as dioceses, os leigos, a Família Scalabriniana e a sociedade civil. Ninguém é dono da missão; ela pertence a Deus e aos pobres.
Deixar-se converter. A reforma de Milão começou pela conversão pessoal de Carlos. Também hoje, toda renovação congregacional nasce de comunidades que rezam, discernem e aceitam ser transformadas pelo encontro com o migrante.
Sempre: a humildade que não passa
Modelos de missão mudam, obras nascem e se encerram, fluxos migratórios mudam de rota. A humildade permanece porque não é uma estratégia, mas o próprio modo de Deus agir. Em Jesus, Deus se fez migrante e servo, “esvaziou-se a si mesmo” (Fl 2,7). Humilitas é, no fundo, imitação desse movimento de descida.
Por isso, o lema de São Carlos não envelhece. Valerá para as Scalabrinianas de amanhã como valeu para as primeiras irmãs que chegaram a São Paulo com Madre Assunta Marchetti em 1895. Valerá enquanto houver alguém obrigado a deixar sua terra. E valerá até o fim, quando o próprio Cristo dirá: “Era estrangeiro e me acolhestes” (Mt 25,35).
Celebrar São Carlos é, portanto, renovar uma escolha simples e exigente: descer, aproximar-se, servir. Ontem, hoje e sempre.
Por Wellington Barros, do Serviço de Comunicação














