A Semana Santa é tradicionalmente vivida como um ciclo de memória litúrgica. No entanto, quando submetida ao rigor da crítica histórica do estudioso John Dominic Crossan e à lente teológico-pastoral do carisma scalabriniano, ela emerge como um manifesto de resistência e uma epifania da condição humana em movimento. Este artigo propõe uma síntese entre o “Jesus Histórico” — o camponês judeu que desafiou o Império — e o “Cristo Migrante” — aquele que continua a sua Via Crucis nas fronteiras da contemporaneidade.
A Entrada em Jerusalém: o confronto de duas procissões
Crossan descreve a entrada de Jesus em Jerusalém não como um evento isolado, mas como uma “anti-procissão”. Enquanto o Prefeito Romano, Pôncio Pilatos, entrava na cidade pelo Oeste com a pompa militar da cavalaria imperial (representando a Pax Romana através da força), Jesus entrava pelo Leste montado em um burro, simbolizando a paz profética e a justiça distributiva.
Essa dualidade reflete o conflito nas fronteiras atuais. De um lado, o “Império” das leis restritivas, da militarização das divisas e da exclusão; do outro, a “procissão” dos vulneráveis — migrantes e refugiados que, com sua humildade e necessidade, questionam a soberania das nações que se fecham ao diferente. A entrada de Jesus é a entrada do “estrangeiro” que reivindica seu lugar na cidade santa.
O Julgamento e a Criminalização da Esperança
Para Crossan, o processo contra Jesus foi um ato político-jurídico necessário para manter a estabilidade do sistema de dominação. Jesus não foi morto por motivos puramente religiosos, mas porque sua proposta de um “Reino de Deus” — onde a mesa era aberta a todos (comensalidade radical) — tornava o sistema imperial obsoleto.
Aqui, o julgamento de Jesus espelha a criminalização da migração. Assim como Jesus foi rotulado como um subversivo, o migrante é frequentemente tratado como um “ilegal” ou uma ameaça à ordem pública. O “Pretório” moderno são os centros de detenção e os tribunais de imigração, onde a dignidade humana é muitas vezes sacrificada em nome de uma suposta segurança nacional.
A Crucificação: o ápice da exclusão
A cruz, na análise de Crossan, era o “outdoor” do Império Romano: um aviso visual de que qualquer um que desafiasse o sistema seria aniquilado. Era a forma definitiva de exclusão social e física.
A Cruz de Cristo é reerguida hoje nos naufrágios do Mediterrâneo, nos desertos do México e nas selvas de Darién. Para as Scalabrinianas, o corpo de Cristo é o corpo do migrante exausto, ferido e, por vezes, morto pela indiferença. A “Paixão” não é um evento do passado, mas uma realidade geográfica presente. Como afirmava São João Batista Scalabrini, “para o migrante, a pátria é a terra que lhe dá o pão”, mas na sexta-feira santa do mundo, essa pátria lhe nega até o solo para descansar.
Ressurreição como vitória da justiça
Crossan defende que a Ressurreição não deve ser lida apenas como um milagre biológico individual, mas como a afirmação de que a vida e o projeto de Jesus são eternos e que a justiça de Deus triunfou sobre a morte imposta pelo Império.
A Páscoa é a acolhida! A Ressurreição acontece toda vez que um migrante encontra uma mão estendida, um abrigo seguro e o reconhecimento de sua cidadania plena. É a passagem da “morte” da invisibilidade para a “vida” da acolhida e da integração. A missão scalabriniana é, em última análise, um ministério pascal: transformar o êxodo doloroso em uma chegada esperançosa.
Conclusão
A integração entre a exegese de Crossan e o carisma de Scalabrini nos convida a uma Semana Santa que não termina no rito, mas que se desdobra em ação política e caridade profética. Ao reconhecer o confronto entre o Reino e o Império na história de Jesus, somos impelidos a reconhecer o mesmo conflito nas questões migratórias de hoje. Celebrar a Páscoa, sob esta luz, é comprometer-se com um mundo onde ninguém seja considerado estrangeiro, pois em Cristo, todos somos migrantes rumo à Pátria definitiva.
Por Wellington Barros, Doutor em Teologia














