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Mesmo uma só destas crianças: a promessa que nos move!


Neste domingo, 27 de setembro de 2026, a Igreja celebra o 112º Dia Mundial do Migrante e do Refugiado. Para este ano, o Papa Leão XIV escolheu um tema que toca o coração de quem caminha com os migrantes: “Mesmo uma só destas crianças” (cf. Mt 18,10).

Na mensagem, o Santo Padre volta nosso olhar para as crianças e os adolescentes que vivem a experiência da migração e do refúgio. São eles, afirma o Papa, os mais vulneráveis dentro dos fluxos migratórios do mundo.

Para nós Scalabrinianas, este tema ressoa de modo muito especial. Nossa história começou justamente junto aos órfãos de famílias migrantes.

Rostos concretos, não estatísticas

O Papa lembra que, a cada ano, milhões de crianças e adolescentes são forçados a deixar sua terra por causa de guerras, pobreza, violência e desastres ambientais, e que esse número continua a crescer. Muitos perderam pais, irmãos e amigos; outros vivem longos períodos separados da família, ou são afastados dela por repatriações. Pelo caminho, enfrentam ainda a morte nas rotas, o tráfico, o recrutamento para conflitos armados, a violência sexual e os casamentos forçados.

Retomando a mensagem do Papa Francisco de 2017, Leão XIV recorda que essas crianças são duplamente, triplamente vulneráveis: por serem pequenas, por serem estrangeiras e por estarem sem defesa.

O centro da mensagem é uma palavra de Jesus: “Quem receber um menino como este, em meu nome, é a mim que recebe” (Mt 18,5). O Evangelho, insiste o Papa, não nos pede cálculos. Basta uma só criança. Cada uma carrega uma dignidade infinita, é imagem de Deus e presença do Senhor. Acolhê-la é, ao mesmo tempo, um gesto de humanidade e um ato de fé.

Leão XIV também reconhece a luz que existe em meio a tanta escuridão: famílias que abrem suas casas, educadores, voluntários e profissionais que cuidam, todos os dias, das feridas invisíveis desses pequenos.

Um chamado em quatro dimensões

A mensagem convoca a uma responsabilidade partilhada:

Na vida pessoal: escutar a história, os medos e os sonhos de cada criança, reconhecendo-a como criança antes de vê-la como “migrante”, e defender seus direitos à vida, à educação e a um desenvolvimento pleno.

Na vida da Igreja: fazer do acolhimento uma prática pastoral constante, e não um conceito abstrato. O Papa é claro ao dizer que essa missão não pode ser apenas delegada às instituições com carisma específico; toda a comunidade cristã deve considerar essas crianças como seus filhos.

Entre as religiões: a vulnerabilidade das crianças não conhece fronteiras confessionais e pode unir os crentes na construção de redes de proteção.

Nas instituições civis: afirmar o interesse superior da criança, garantir instrumentos jurídicos de proteção e favorecer a reunificação familiar. O debate, diz o Papa, precisa passar da mera gestão dos fluxos para a tutela plena dos direitos humanos.

A mensagem termina confiando os menores migrantes a Maria, que, com José e o Menino Jesus, conheceu a violência de Herodes e o exílio no Egito.

Uma promessa feita em alto-mar

A história das Scalabrinianas começa, literalmente, com uma só criança. Em dezembro de 1894, o Pe. José Marchetti viajava como capelão de bordo num navio que levava cerca de 1.500 migrantes italianos ao Brasil. Durante a travessia, uma jovem mãe morreu, deixando um bebê de colo e um marido desesperado, que ameaçava lançar-se ao mar com o filho.

Para salvá-los, o Pe. José fez uma promessa: ele cuidaria da criança. Ao desembarcar, a dificuldade de encontrar quem acolhesse o bebê fez nascer nele a ideia de um orfanato para as crianças que perdiam os pais na migração.

Em fevereiro de 1895, ele lançou a pedra fundamental do Orfanato Cristóvão Colombo, no Ipiranga, em São Paulo. Para cuidar dos pequenos, foi buscar Irmãs na Itália, entre elas sua irmã Assunta. Assim nascia, com a bênção de Dom João Batista Scalabrini, a nossa Congregação. Seu primeiro nome dizia tudo: “Servas dos Órfãos e Abandonados no Exterior”.

Uma casa para todas as crianças

As primeiras Irmãs assumiram o cuidado de centenas de órfãos: filhos de migrantes italianos e também filhos de ex-escravizados que viviam abandonados nas ruas de São Paulo. Toda criança era recebida, fosse qual fosse sua cor ou origem. O desejo era criar ao redor delas um verdadeiro clima de família.

O Pe. José deu a vida por essa missão. Em 1896, ao socorrer migrantes atingidos pela epidemia de tifo em Jaú contraiu a doença e morreu em 14 de dezembro, com apenas 27 anos.

Madre Assunta sustentou a obra nascente e passou mais de cinco décadas entre as crianças, como mãe, enfermeira, cozinheira e catequista. Faleceu no próprio orfanato, na Vila Prudente, em 1º de julho de 1948. No mesmo lugar, a Casa Madre Assunta continua hoje acolhendo crianças de famílias vulneráveis.

A promessa que nos move

Quando o Papa Leão XIV nos diz que basta uma só criança, reconhecemos a nossa própria história. Nascemos de uma promessa feita a uma criança migrante, e essa promessa continua a nos mover.

A mensagem também nos interpela. Ao afirmar que o acolhimento não pode ficar restrito às instituições de carisma específico, o Papa nos lembra que nossa missão não é substituir a comunidade, e sim animá-la. Como Scalabrinianas, somos chamadas a ser fermento: ajudar paróquias, escolas e famílias a descobrirem que a criança migrante do bairro é também filha delas.

Hoje, nossas Irmãs seguem presentes em casas de acolhida, escolas e centros de atendimento a migrantes em diversos países. Em cada criança que chega com a mochila leve e o coração pesado, renovamos a promessa feita em alto-mar e acolhemos o próprio Cristo.

Como viver este Dia Mundial

Inspirados pela mensagem do Papa, propomos alguns gestos simples para as comunidades:

Rezar nas celebrações deste domingo pelas crianças migrantes e refugiadas, especialmente as que viajam sozinhas ou estão separadas de suas famílias.

Escutar as histórias de famílias migrantes da paróquia ou da escola, dando espaço para que as crianças contem, com suas palavras, de onde vieram e o que sonham.

Integrar crianças migrantes na catequese, nos grupos de jovens e nas atividades da comunidade, promovendo amizades entre elas e as crianças locais.

Apoiar as iniciativas de acolhida e proteção da infância migrante na sua cidade, com tempo, recursos ou voluntariado.

“Não podemos permanecer indiferentes”, escreve Leão XIV. Que Maria, mãe exilada no Egito, e São João Batista Scalabrini, pai dos migrantes, nos ajudem a acolher cada criança como quem acolhe o próprio Senhor.

Por Wellington Barros pelo Serviço de Comunicação

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