Neste segundo domingo de agosto, o Brasil celebra o Dia dos Pais. Poucos se lembram de que a data, criada em 1953 por iniciativa publicitária, foi celebrada pela primeira vez justamente no dia dedicado a São Joaquim, avô de Jesus na tradição católica. Sob o carisma de João Batista Scalabrini, pai dos migrantes, essa coincidência ganha um peso maior: convida a olhar a paternidade não como um título de autoridade, mas como um ofício exercido com as próprias mãos, muitas vezes longe de casa, quase sempre em silêncio.
Para quem vive o carisma scalabriniano, o pai não é a figura que preside a família à distância, mas aquele que se levanta e parte. Não é a árvore que garante sombra fixa a um só lugar, mas o alicerce lançado em terra estrangeira: um trabalho que sustenta uma casa que ele, muitas vezes, nunca chega a habitar por inteiro.
São José, o Pai que se Levanta e Parte
Os Evangelhos não registram uma única frase dita por José. Sua paternidade se revela inteiramente no gesto: ele recebe um aviso em sonho, levanta-se, toma consigo o Menino e a mãe, e parte — para Belém, para o Egito, de volta a Nazaré. É esse padrão que se repete: alerta, decisão, travessia, sem uma palavra de queixa registrada nas Escrituras.
O Papa Francisco dedicou a José a carta apostólica “Patris Corde”, na qual o reconhece como modelo de quem sabe agir com coragem diante do imprevisto, e como referência espiritual particular para as famílias que hoje precisam deixar sua terra fugindo da guerra, da fome ou da perseguição. É uma leitura que a espiritualidade scalabriniana reconhece de imediato: José não explica o sofrimento nem discursa sobre ele — ele carrega. Sua grandeza está inteira numa fidelidade quieta e cotidiana, raramente vista, quase nunca aplaudida.
Quantos pais migrantes vivem, hoje, essa mesma paternidade sem palco — reconhecida apenas por quem recebe, em algum lugar distante, o fruto de suas mãos?
Duas Fronteiras, uma Só Paternidade
A paternidade migrante, na experiência que as Scalabrinianas acompanham em suas casas de acolhida ao redor do mundo, assume ao menos dois rostos.
Há o pai que parte primeiro, sozinho, para abrir caminho: atravessa a fronteira, aprende a sobreviver numa língua que não é a sua, sustenta os filhos à distância por meio de uma remessa mensal, de uma ligação aos domingos, de fotografias que envelhecem mais depressa do que ele gostaria. É uma paternidade exercida na ausência, mas nunca no abandono, que ama pelo trabalho quando ainda não pode amar pela presença.
Há também o pai que migra junto com os seus, carregando literalmente nos ombros o peso da travessia: a criança no colo, a mochila com o pouco que resta, o medo disfarçado de firmeza para que a família não desabe. Esse pai é escudo antes de ser abrigo, atravessando o mesmo deserto, o mesmo mar, a mesma fronteira hostil que José atravessou sem saber, como ele, o que encontraria do outro lado.
Scalabrini: uma Paternidade que Gerou Filhas e Filhos
João Batista Scalabrini nunca teve filhos biológicos. Como bispo de Piacenza, dedicou-se inteiramente ao drama dos migrantes italianos que via partir, aos milhares, das estações de trem e dos navios no porto, rumo às Américas. Ainda assim, a Igreja o reconheceu, primeiro na beatificação de 1997 e depois na canonização de 2022, com um título que também é de paternidade: Pai dos Migrantes.
A dele foi uma paternidade de outra ordem — gerada não no corpo, mas na entrega total de si. Dessa entrega nasceu uma família com padres, irmãs, leigos, colaboradores e voluntários. Scalabrini insistia para que seus missionários e missionárias acompanhassem cada migrante de perto, levando-lhe a proximidade da fé e o carinho de quem não deixa ninguém esquecer de onde veio. É esse mesmo impulso paterno que hoje leva as Scalabrinianas a acolher, mundo afora, tantos pais e filhos separados por fronteiras que a política ainda não soube abolir.
Uma Paternidade sem Fronteiras
Celebrar o Dia dos Pais na perspectiva scalabriniana é, portanto, honrar uma paternidade que dispensa palco e aplauso. É lembrar dos pais que erguem prédios onde não vão morar, colhem safras que não vão comer, enviam dinheiro para aniversários que não vão testemunhar — e que, ainda assim, seguem sendo, para seus filhos, a certeza silenciosa de que alguém, em algum lugar, permanece de pé por eles.
Que este domingo seja também uma oração por esses pais: os que já partiram, os que ainda partem, e os que, como José, aceitaram carregar em silêncio a coragem de recomeçar em terra alheia — para que outros, um dia, pudessem finalmente descansar.
Por Wellington Barros pelo Serviço de Comunicação das Scalabrinianas
Por Wellington Barros, pelo Serviço de Comunicação

















