De acordo com um novo relatório da Organização Internacional para as Migrações (OIM), divulgado no dia 12 de agosto, as rotas migratórias estão ficando mais perigosas, apesar da queda nas chegadas irregulares. O documento analisa dados obtidos entre janeiro e abril de 2026.
O documento aponta que conflitos, mudanças nas políticas migratórias, condições climáticas, eventos extremos, fatores econômicos e mudanças sazonais tiveram forte influência sobre os fluxos migratórios nos primeiros quatro meses de 2026. Esses fatores alteraram não apenas o volume dos fluxos, mas também as nacionalidades, os destinos e os níveis de vulnerabilidade das pessoas migrantes.
Segundo o relatório, citando dados do UN DESA (Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais das Nações Unidas), 45% dos 304 milhões de migrantes internacionais registrados em 2024 viviam dentro de sua própria região de origem.
Queda nas migrações em direção à América do Norte
De acordo com a OIM, a rota da América Central apresentou uma das mudanças mais expressivas entre janeiro e abril de 2026. Os dados apontam que os fluxos entrando na Colômbia a partir do Panamá caíram de 7.306 para 3.527, em comparação com o mesmo período 2025, com os trânsitos irregulares pela Selva de Darién tendo caído 95%, se aproximando de zero.
Além disso, o documento aponta que o processamento de migrantes irregulares no México caiu 87%. Ao mesmo tempo, a OIM destaca a continuidade de um movimento em direção ao sul, mostrando que a redução da migração rumo aos Estados Unidos não significa necessariamente o fim dos deslocamentos, mas uma transformação das rotas e dos destinos.
América Latina e Caribe
A situação da Venezuela continua influenciando fortemente as dinâmicas migratórias na América Latina e no Caribe. Em maio de 2026, cerca de 6,96 milhões de venezuelanos refugiados e migrantes viviam em outros países da região. Embora os deslocamentos em direção ao norte tenham diminuído, a mobilidade dentro da América do Sul ganhou importância, especialmente pela Rota Andina, que passa por Venezuela, Colômbia, Equador, Peru e Chile.
Nesse contexto de transformação das rotas, o documento aponta que a migração cubana também apresenta mudanças importantes. O Brasil se tornou um destino cada vez mais relevante, com as chegadas de cubanos ao país triplicando em 2025, acompanhadas por um aumento expressivo nos pedidos de asilo.
Os dados mostram que a migração na América Latina e no Caribe não se resume aos deslocamentos rumo aos Estados Unidos. Venezuela, Cuba, Brasil e outros países da região fazem parte de uma dinâmica migratória cada vez mais intrarregional, influenciada pelas condições econômicas, políticas e sociais, pelas políticas migratórias dos países e pelas oportunidades de integração e acesso a serviços.
Mar Mediterrâneo
No Mediterrâneo Central, a OIM destaca que foram registradas 8.577 chegadas entre janeiro e abril de 2026, uma redução de 46% em relação ao mesmo período de 2025. A queda foi parcialmente associada às condições meteorológicas severas, especialmente ao Ciclone Harry, em janeiro.
Ao mesmo tempo, a situação humanitária se agravou, com 821 mortes e desaparecimentos registrados na rota, um aumento de 111% em relação ao mesmo período de 2025. Os dados apontam que somente em janeiro foram registradas 430 mortes ou desaparecimentos, com o afogamento figurando como a principal causa.
Na Rota do Mediterrâneo Oriental, foram registradas 9.032 chegadas, uma redução de 30% em relação a 2025. Apesar disso, foram registradas 244 mortes ou desaparecimentos, um aumento de 259% em relação ao ano passado. O relatório chama atenção particularmente para os deslocamentos que partem da Líbia em direção a Creta, que envolvem viagens marítimas mais longas e perigosas.
Em sentido contrário às outras duas rotas mediterrâneas, a Rota do Mediterrâneo Ocidental apresentou aumento, com 5.647 chegadas à Espanha, 66% a mais que o registrado no mesmo período de 2025. O crescimento foi particularmente expressivo nas chegadas por terra, que registraram 2.164 migrantes, um aumento de cerca de 300% em relação ao ano passado.
Rota Atlântica da África Ocidental
O documento aponta que as chegadas à Espanha pela Rota Atlântica da África Ocidental chegaram a 2.276 pessoas entre janeiro e abril, o que representou uma queda de 78% em relação a 2025.
Apesar disso, a travessia ficou mais perigosa. Com o fortalecimento da cooperação fronteiriça entre Senegal e Mauritânia, os pontos de partida foram deslocados para o sul, chegando a países como Gâmbia e Guiné-Bissau, o que aumenta a distância percorrida no mar e a exposição das pessoas migrantes aos riscos da travessia.
Chifre da África
Na Rota Oriental do Chifre da África, os quatro primeiros meses de 2026 registraram 70.200 chegadas ao Iêmen, um aumento de 9% em relação ao ano passado. De acordo com a OIM, a maioria das pessoas partiu do Djibuti (72%), enquanto 28% partiram da Somália.
África Austral
Na Rota da África Oriental e Austral, o relatório aponta que os movimentos em direção à África do Sul caíram 39%, passando de aproximadamente 39.800 para 24.200 chegadas em comparação com o mesmo período de 2025.
Ao mesmo tempo, houve aumento significativo dos retornos registrados na África do Sul, que representou 72% dos retornos, seguida por Moçambique, com 21%, e Zimbábue, com 6%.
Conflitos continuam sendo grandes motores de deslocamento
O relatório evidencia o impacto de conflitos prolongados, especialmente no Sudão, onde o conflito entra em seu terceiro ano, na Bacia do Lago Chade, no Sahel Central/Liptako-Gourma, além do Afeganistão e outras áreas de instabilidade.
No Lago Chade, aproximadamente 6,5 milhões de pessoas estavam afetadas pela crise em abril de 2026, incluindo mais de 3,3 milhões de deslocados internos, 2,7 milhões de retornados e mais de 500 mil refugiados. Na região de Liptako-Gourma, a crise havia provocado o deslocamento de 3,49 milhões de pessoas, sendo 2,75 milhões de deslocados internos e 739.441 refugiados.
Mudanças climáticas e meio ambiente também influenciam a migração
O relatório mostra, ainda, que fatores ambientais aparecem cada vez mais associados a outros motivos de migração. Na África Ocidental e Central, por exemplo, entre os 96.471 migrantes identificados em Burkina Faso, Chade, Mali, Níger, Guiné e Senegal em dezembro de 2025, 51% perceberam mudanças ambientais em seus locais de origem e 44% afirmaram que essas mudanças contribuíram para sua decisão de migrar.
Leia o relatório na íntegra: https://dtm.iom.int/reports/global-overview-migration-routes-jan-april-2026
Por Amanda Almeida, do Serviço de Comunicação












