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131 anos: qual será o nosso futuro?


Hoje celebramos 131 anos do nosso ato de fundação em Piacenza, Itália, por São João Batista Scalabrini. Padre José Marchetti e sua irmã, madre Assunta Marchetti, tiveram grande importância na organização e instituição da Congregação, eles foram os cofundadores e salvaguardaram o carisma das origens quando crises ameaçaram a continuidade.

A missão das Scalabrinianas faz hoje tanto sentido, ou mais, quanto em 1895. O mundo mudou muito desde 1895. Mudaram os navios, as rotas e as fronteiras. Mas a dor de quem parte continua a mesma, a saudade de casa, o medo do desconhecido, a língua que não se entende, o documento que não chega, a porta que se fecha. Hoje são milhões de pessoas deslocadas pela guerra, pela fome, pela violência e pelas mudanças do clima. Muitas são crianças, e muitas são mulheres sozinhas. Os números são grandes demais para caber no coração.

Ninguém pode prever o futuro de uma congregação, mas dá para olhar os sinais que ela mesma está dando e os desafios que enfrenta. Ouso imaginar que o nosso futuro provavelmente não será de grande crescimento em número de Irmãs, mas pode ser de muita fecundidade. Uma congregação menor, mais articulada, mais intercultural e com o carisma partilhado com leigos pode chegar mais longe. Enquanto houver pessoas forçadas a deixar sua terra, a razão de ser das Scalabrinianas continua de pé. Mesmo com um provável futuro que pode não ser de grandes números, não quer dizer que será um futuro sem vida. Muitas vezes, o que permanece de um carisma não são as estruturas, mas as sementes plantadas em leigos, em migrantes que se tornaram protagonistas.

O futuro depende do encontro entre testemunho e fecundidade

O Papa Francisco disse aos consagrados que onde há religiosos deve haver alegria. Uma vida consagrada triste, ressentida ou só preocupada com a sobrevivência não atrai e não gera vida. A alegria não nega as dificuldades. Ela nasce de saber que a vida tem sentido. O primeiro testemunho de uma comunidade é como as Irmãs se tratam entre si. Num mundo fragmentado, uma comunidade de mulheres de várias culturas e idades que se ama, se perdoa e se sustenta já é um sinal profético. A interculturalidade da congregação pode ser, em si, um testemunho: vivemos por dentro a acolhida que pregamos!

Desde o início, a Igreja teve disputas. Paulo e Barnabé se separaram por desacordo (At 15,39). Os apóstolos discutiam quem era o maior (Lc 22,24). A comunidade de Corinto estava dividida em grupos (1Cor 1,10-12). As próprias congregações, inclusive em seus começos, passaram por tensões e crises. Ter conflito não é sinal de fracasso. O problema começa quando o conflito: não é falado e vira ressentimento silencioso; é falado nos corredores ou expostos de maneiras inadequadas, mas não particularmente com a pessoa envolvida; vira disputa de poder ou de grupos; se arrasta por anos sem reconciliação.

Raízes dos conflitos na vida comunitária

Nenhuma comunidade está livre de tensões, e reconhecer de onde elas nascem é o primeiro passo para curá-las. Muitas vezes, os conflitos surgem de disputas de poder, quase sempre silenciosas, por cargos, por influência, pelas decisões ou por quem tem a última palavra. Quando o serviço se confunde com controle, a missão deixa de ser de todas e passa a ser de algumas.

Dessas disputas nascem facilmente grupos e “partidos”, que se formam por idade, nacionalidade ou região, formação ou visão de missão. Aos poucos, a comunidade deixa de ser um único corpo e se torna um conjunto de lados que se observam com desconfiança.

O choque de gerações também pesa. As Irmãs mais velhas, que deram a vida para construir as obras, às vezes sentem que o que fizeram está sendo desfeito ou esquecido. As mais jovens, por sua vez, sentem que não encontram espaço para propor, criar e assumir responsabilidades. Ambas têm razão em parte, e ambas precisam ser escutadas.

Numa congregação intercultural, o choque cultural pode se tornar fonte de mal-entendidos. Diferenças no jeito de falar, no ritmo de trabalho, na forma de expressar afeto ou desacordo são, muitas vezes, interpretadas como falta de respeito ou de compromisso, quando são apenas modos diferentes de ser.

Há também as feridas antigas não curadas, decisões tomadas sem diálogo, transferências que machucaram, palavras ditas num momento difícil e que nunca foram conversadas. Essas dores ficam guardadas e reaparecem, anos depois, em pequenos atritos que parecem desproporcionais, mas que carregam uma história inteira.

Por fim, muitos conflitos nascem do ativismo e do cansaço. Quando o trabalho é excessivo e falta tempo para a oração, o descanso e a convivência, as relações se desgastam. A Irmã exausta tem menos paciência, escuta menos e/se fere com mais facilidade. Cuidar das relações também é parte da missão, e talvez seja a parte que sustenta todas as outras.

Na Evangelii Gaudium (n. 98-101), o Papa Francisco alerta para as “guerras entre nós” dentro da Igreja. Ele pede especialmente que os consagrados não deem ao mundo o contratestemunho de comunidades divididas. O Papa Francisco foi muito duro com isso. Chegou a comparar a fofoca a um “terrorismo”, porque destrói o outro por trás, sem chance de defesa.

Por que isso pesa tanto no testemunho?

Jesus disse: “Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros” (Jo 13,35). Ele não disse “se fizerdes muitas obras”. O primeiro anúncio de uma comunidade é a forma como seus membros se tratam.

Para as Scalabrinianas, isso tem uma força especial. Uma congregação que prega acolhida ao estrangeiro precisa viver internamento de forma mais intensa essa acolhida: da Irmã de outra cultura, da que pensa diferente, da que é difícil. Se não houver acolhida dentro de casa, a mensagem perde credibilidade. As jovens percebem isso rapidamente. Uma comunidade com tensões não resolvidas raramente atrai vocações, mesmo que faça um trabalho excelente.

Caminhos para lidar com os conflitos

Falar diretamente. O caminho do Evangelho é claro: “Se teu irmão pecar contra ti, vai e repreende-o entre ti e ele só” (Mt 18,15). Primeiro com a pessoa, não sobre a pessoa. Isso exige coragem e humildade.

Criar espaços seguros de diálogo. Reuniões comunitárias em que se possa falar com sinceridade, sem medo de represálias. Às vezes é preciso uma regra simples: o que é dito ali é tratado com respeito e não sai dali.

Buscar ajuda de fora quando necessário. Alguns conflitos são profundos demais para serem resolvidos só internamente. Um facilitador, um mediador, um acompanhante espiritual ou um psicólogo podem ajudar. Pedir ajuda não é fraqueza. É sabedoria.

Distinguir pessoa e problema. É possível discordar firmemente de uma decisão sem desqualificar a Irmã que a tomou.

Cuidar das feridas antigas. Muitas disputas atuais são, na verdade, dores do passado. Às vezes é preciso um processo intencional de reconciliação, com escuta, reconhecimento do que machucou e, quando possível, pedido de perdão.

Rever estruturas e decisões. Nem todo conflito é pessoal. Alguns nascem de estruturas pouco claras, como quem decide o quê, como se escolhe, como se comunica. Transparência e participação diminuem muito as disputas.

Integrar gerações e culturas. Dar voz às mais jovens e honrar a experiência das mais velhas. Tratar a diferença cultural como riqueza, não como ameaça.

Rezar juntas, também pelas dificuldades. Não para fugir do problema, mas para colocá-lo diante de Deus. É difícil manter o ódio por quem se reza ao lado todos os dias.

O conflito também pode ser fecundo

Um conflito bem vivido pode amadurecer uma comunidade. Quando as Irmãs conseguem discordar, conversar, pedir perdão e seguir juntas, a comunidade se fortalece. Esse é um testemunho que o mundo, cheio de polarização, precisa muito ver. O perdão não apaga o que aconteceu, mas impede que o passado decida o futuro. E a reconciliação é, talvez, um dos frutos mais visíveis da presença de Deus numa comunidade.

Perguntas para reflexão

Existe hoje, entre nós, algo que todas sabem, mas ninguém fala?

Há alguma Irmã com quem preciso conversar e venho adiando?

Nossas conversas sobre os problemas acontecem com as pessoas ou pelas costas delas?

Que feridas antigas ainda pesam na nossa comunidade?

Como acolhemos a Irmã que é diferente de nós?

Precisamos de ajuda de fora para algum conflito?


Por Wellington Barros pelo Serviço de Comunicação

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