De acordo com o relatório “No Escape III” (disponível em inglês), publicado pelo ACNUR (Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados) nesta sexta-feira, 6, cerca de 90 milhões de pessoas deslocadas à força vivem em países com alta ou extrema exposição a riscos relacionados ao clima. O documento antecede a Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP31), que será realizada em Antalya, Turquia, entre 9 e 20 de novembro.
Segundo o ACNUR, mais de 255 milhões de deslocamentos internos relacionados a eventos climáticos foram registrados mundialmente na última década, o equivalente a quase 70 mil deslocamentos por dia. O documento aponta que, em 2025, mais de 171 milhões de estudantes tiveram sua educação interrompida por riscos climáticos, o equivalente a uma em cada dez crianças e adolescentes em idade escolar no mundo. “Para crianças refugiadas e deslocadas, que frequentemente já enfrentam barreiras à educação, tais interrupções podem ter consequências duradouras para o aprendizado, o bem-estar e oportunidades futuras”, destaca o relatório.
Além disso, os dados apontam que 90% das 4,7 milhões de pessoas apátridas conhecidas vivem em países altamente expostos aos riscos climáticos. O ACNUR alerta, ainda, para as dificuldades enfrentadas por essas populações no acesso à proteção social, trabalho formal, terras, moradia, bancos, educação, entre outros serviços que apoiam a recuperação e a adaptação.
De acordo com o relatório, 70% dos refugiados e demais pessoas sob mandato do ACNUR estavam em situações prolongadas de deslocamento ao final de 2025, vivendo há cinco anos ou mais no exílio sem perspectiva imediata de solução duradoura.
Principais impactos das mudanças climáticas sobre as populações deslocadas
O relatório identifica quatro grandes dimensões de impacto, sendo elas:
- Calor extremo e riscos à saúde, destacando que, até 2050, a maioria dos assentamentos e campos de refugiados deverá enfrentar aproximadamente o dobro de dias de calor perigoso por ano, com um em cada três assentamentos na África Subsaariana podendo registrar mais de 100 dias.
- Deslocamentos novos e recorrentes, com secas, enchentes, ciclones e outros eventos extremos provocando novos deslocamentos e obrigando deslocados a fugirem novamente. Entre os dados destacados, está a possibilidade de que enchentes associadas ao El Niño desloquem entre 770 mil e 3 milhões de pessoas na Somália, no Quênia, no Sudão do Sul e em Uganda. Além disso, o documento recorda que, em julho de 2026, chuvas de monção, enchentes e deslizamentos em Bangladesh afetaram mais de 52 mil refugiados rohingya e deslocaram mais de 13 mil pessoas.
- Dificuldades para reconstruir a vida e retornar ao país de origem, sublinhando que o retorno não significa necessariamente o fim do deslocamento. Segundo os dados apontados, mais de dois terços dos refugiados retornados no primeiro semestre de 2026 voltaram para países altamente vulneráveis às mudanças climáticas, o que aumenta o risco de novos deslocamentos.
- Vulnerabilidade das pessoas apátridas, com a ausência de documentação e nacionalidade reconhecida dificultando o acesso à assistência humanitária, moradia, saúde, educação e proteção social. Além disso, o relatório defende que a proteção e a assistência em situações de emergência não dependam exclusivamente da apresentação de documentos.
Populações mais afetadas
O relatório do ACNUR destaca, ainda, que os impactos das mudanças climáticas não são iguais para todas as pessoas. Segundo o documento, grupos como mulheres e meninas, crianças, pessoas com deficiência, idosos e pessoas com problemas de saúde enfrentam riscos adicionais, que vão desde a violência de gênero, até interrupção da educação, maior vulnerabilidade à exploração e riscos à saúde.
O documento sublinha que não é possível enfrentar a crise do deslocamento forçado sem considerar a crise climática. As mudanças climáticas agravam conflitos, destroem meios de subsistência, comprometem o acesso à água e aos alimentos e dificultam tanto a integração nos países de acolhida quanto o retorno seguro aos países de origem.
Ao mesmo tempo, o relatório aponta que as comunidades deslocadas já desenvolvem estratégias de adaptação e soluções concretas. O desafio é garantir que tenham recursos, oportunidades e participação nas decisões. A mensagem central do relatório é a necessidade de passar de respostas emergenciais e temporárias para investimentos sustentáveis em proteção, adaptação climática, infraestrutura e desenvolvimento.
Por Amanda Almeida, do Serviço de Comunicação















