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Papa Leão XIV defende cooperação internacional e combate à fome em discurso ao Programa Alimentar Mundial

Durante visita à sede do Programa Alimentar Mundial em Roma (WFP), na segunda-feira, 22, o Papa Leão XIV destacou a sintonia do compromisso da instituição com a missão da Igreja na tutela da dignidade humana e promoção da fraternidade. O Pontífice discursou durante a reunião anual do Conselho Executivo do Programa Alimentar Mundial.

Em sua fala, o Papa destacou a evolução das crises de eventos isolados para realidades persistentes, com conflitos prolongados e insegurança alimentar crônica, além de volatilidade econômica e vulnerabilidades climáticas crescentes. Diante disso, ele questionou: “que configuração da ordem global é capaz de produzir, reproduzir e, às vezes, normalizar tais condições?”, sublinhando que a questão não se limita a saber como intervir, mas inclui a compreensão do motivo da criação de problemas pelo sistema.

Cooperação internacional em crise
O Papa alertou para o enfraquecimento da cooperação internacional diante da crise do sistema multilateral. Segundo o Pontífice, a falta de um horizonte ético comum tem levado a uma ordem mundial marcada pela desconfiança e pelos conflitos, fazendo com que muitos países priorizem interesses internos, como segurança e crescimento econômico, em detrimento da colaboração entre as nações.

Ele também destacou o paradoxo existente entre o aumento da capacidade produtiva global e a expansão das situações de vulnerabilidade. Segundo ele, as mesmas forças que impulsionam o crescimento econômico frequentemente agravam a exclusão social, enquanto as questões humanitárias correm o risco de perder espaço nas prioridades da comunidade internacional.

A fome e a burocratização da solidariedade
Leão XIV criticou a crescente burocratização da solidariedade, sublinhando que a burocracia excessiva pode atrasar a assistência aos necessitados. Ele alertou ainda, que, o acesso a bens essenciais, como os alimentos, tem sido frequentemente condicionado por interesses econômicos e estratégicos, correndo o risco de tornar invisíveis aqueles que não geram valor econômico mensurável.

O Papa, sublinhou que, enquanto planos de desenvolvimentos são dificultados por decisões políticas, o desenvolvimento de armas não tem os mesmos obstáculos, com conflitos sendo “alimentados” de forma mais rápida do que as pessoas. “Esta realidade reflete não só deficiências operacionais, mas também um desequilíbrio fundamental nas prioridades políticas e morais”, disse.

Muito além da preocupação humanitária, ele destacou que a fome aumenta o risco de conflitos e alimenta a migração forçada, apontando que ela enfraquece a capacidade das sociedades de construírem instituições resilientes, proporcionar educação eficaz e promover um desenvolvimento econômico sustentável. “Assim, perpetua ciclos de fragilidade que, em última análise, têm impacto sobre a comunidade internacional em geral”, disse.

Além da gestão de crises, ele ressaltou que as instituições internacionais encarnam um princípio de responsabilidade compartilhada, demonstrando união através da preocupação pelos mais vulneráveis. “Neste sentido, o Programa Alimentar Mundial é mais do que um ator político, económico ou técnico; é uma expressão concreta da solidariedade internacional”, afirmou.

Um renovado compromisso com a cooperação multilateral
A partir disso, o Papa Leão XIV defendeu um renovado compromisso com a cooperação multilateral, afirmando que nenhum país é capaz de enfrentar sozinho os desafios globais. Segundo ele, a construção da paz e do desenvolvimento sustentável exige diálogo internacional, ações coordenadas e uma vontade política voltada ao bem comum, tendo a fraternidade e a colaboração entre os povos como princípios fundamentais.

O Pontífice apelou aos governos e povos do mundo para que renovem seu compromisso e aumentem os recursos destinados ao combate da fome e suas causas, eliminando os obstáculos que impedem que a ajuda chegue aos necessitados. Este apoio, ele destacou, deve fortalecer, também, a participação da Igreja e da sociedade civil, multiplicando a eficácia coletiva na luta contra a fome.

Leão XIV sublinhou, ainda, que em situações onde o acesso humanitário é restrito, os parceiros locais são indispensáveis na assistência aos necessitados. Ele apontou que a Igreja Católica, muitas vezes, consegue chegar a populações vulneráveis em áreas inacessíveis aos atores internacionais, encorajando o Programa Alimentar Mundial e seus parceiros a continuarem apoiando estes esforços.

Resistir à mercantilização das necessidades humanas básicas
O Papa destacou, ainda, a necessidade de “resistir à mercantilização das necessidades humanas básicas”, apontando que a alimentação, água e cuidados de saúde não podem ser condicionadas a interesses geopolíticos. “O acesso a uma alimentação adequada é um direito humano fundamental, assente na dignidade de cada pessoa. Satisfazer esta necessidade não apenas alivia o sofrimento, mas também enfrenta as causas subjacentes à instabilidade geopolítica”, afirmou.

Leão XIV elogiou o trabalho do Programa Alimentar Mundial por ir além da assistência emergencial e investir em iniciativas de longo prazo, como programas de alimentação escolar. Segundo ele, essas ações fortalecem a educação, promovem o desenvolvimento humano e aumentam a resiliência das comunidades, contribuindo para a dignidade e o bem-estar integral das pessoas.

Ao concluir seu discurso, o Papa Leão XIV afirmou que o desafio atual vai além da eficácia das organizações internacionais e envolve a própria credibilidade da cooperação entre as nações. Ele defendeu a simplificação dos processos, a prioridade ao essencial e a garantia de que ninguém seja esquecido, recordando que toda pessoa possui uma dignidade “inerente e inalienável”. O pontífice ressaltou ainda que “é precisamente na nossa fidelidade a esta verdade que se mede a humanidade das nossas políticas”, destacando que o respeito à dignidade humana deve orientar o futuro da comunidade internacional.

Por Amanda Almeida, do Serviço de Comunicação

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