No dia 20 de junho, a comunidade internacional celebra o Dia Mundial dos Refugiados, uma data que nos convida a olhar com atenção e responsabilidade para milhões de pessoas que foram forçadas a deixar suas casas em busca de proteção, segurança e dignidade. Mais do que recordar estatísticas, este dia nos chama a reconhecer histórias concretas, marcadas por deslocamento, perda, resistência e esperança.
O relatório Global Trends 2025, divulgado pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR), apresenta um retrato atualizado da realidade do deslocamento forçado no mundo. Embora tenha havido uma leve redução em relação ao ano anterior, os números permanecem alarmantes: 117,8 milhões de pessoas estavam em situação de deslocamento forçado ao final de 2025, sendo 41,6 milhões de refugiados. Trata-se de uma realidade que continua a interpelar a consciência global e a exigir respostas concretas de acolhida e proteção.
Entre os dados mais significativos, o relatório aponta que cerca de 4,4 milhões de refugiados retornaram aos seus países de origem em 2025 — um dos maiores números já registrados. No entanto, esse movimento não pode ser interpretado de forma simplista como sinal de solução. Em muitos casos, os retornos ocorreram em contextos ainda marcados por insegurança, fragilidade institucional, destruição de infraestrutura e ausência de serviços essenciais. O próprio ACNUR alerta que parte desses retornos foi motivada mais por pressões nos países de acolhida do que por condições reais de reconstrução da vida.
A situação de pessoas afegãs é um exemplo expressivo dessa complexidade. Quase dois milhões retornaram ao Afeganistão ao longo do ano, muitas após longos períodos vivendo em países vizinhos. Ao regressarem, encontraram dificuldades profundas para acessar educação, saúde, trabalho e alimentação, revelando que o retorno físico ao país de origem não significa, necessariamente, o reencontro com uma vida digna e segura.
Também na Síria, mais de um milhão de refugiados retornaram após mudanças no cenário político no final de 2024. Apesar da esperança de reconstrução, muitos se depararam com cidades devastadas, pobreza generalizada e serviços públicos ainda fragilizados. O desejo de voltar para casa permanece vivo, mas a reconstrução da vida exige muito mais do que atravessar fronteiras: exige paz duradoura, políticas públicas sólidas e apoio internacional consistente.
Por trás de cada número há uma história. Há uma família separada pela migração forçada. Há crianças que interromperam sua educação. Há trabalhadores que perderam sua fonte de renda. Há idosos que carregam a saudade de territórios que já não oferecem segurança. Reconhecer essas vidas é essencial para não reduzir o deslocamento forçado a uma mera estatística.
É justamente nesse ponto que a missão das Irmãs Scalabrinianas se torna profundamente significativa. O carisma scalabriniano nasce do encontro com o sofrimento concreto dos migrantes e refugiados e da convicção de que toda pessoa em mobilidade é portadora de dignidade inalienável. Inspiradas por São João Batista Scalabrini, as religiosas compreendem a migração como uma realidade humana, social e espiritual que interpela a Igreja e a sociedade.
Scalabrini via nos migrantes não apenas deslocamentos populacionais, mas rostos concretos de Cristo peregrino, que experimenta o exílio e a falta de um lugar onde repousar. Dessa visão nasce uma espiritualidade que não separa fé e vida, mas se compromete com a defesa da dignidade humana em movimento.
Hoje, essa missão continua viva na atuação das Scalabrinianas em diferentes países, por meio de escolas, centros de acolhida, serviços de assistência social, programas de qualificação profissional, ações pastorais e iniciativas de defesa de direitos. Cada uma dessas frentes expressa um compromisso concreto com a acolhida, a proteção, a integração e a promoção integral de migrantes e refugiados.
O relatório do ACNUR reforça que, tanto os que retornam quanto os que permanecem em países de acolhida, necessitam de condições reais para reconstruir suas vidas: acesso a direitos básicos, oportunidades de trabalho, educação de qualidade e participação social. Essas necessidades dialogam diretamente com o trabalho desenvolvido pelas Scalabrinianas ao redor do mundo, que busca transformar a experiência migratória em caminho de encontro, solidariedade e esperança.
Neste Dia Mundial dos Refugiados, somos chamados a ir além da comoção momentânea. O Evangelho e o carisma scalabriniano nos convocam à construção de uma cultura do encontro, na qual o refugiado não seja visto como um problema, mas como uma presença que interpela, enriquece e humaniza a sociedade.
A esperança que sustenta milhões de pessoas deslocadas não se limita ao desejo de retorno ao país de origem. Ela se manifesta também na solidariedade concreta, nas comunidades que acolhem, nas políticas que protegem e nas iniciativas que promovem vida digna.
Diante de um cenário global ainda marcado por deslocamentos forçados em larga escala, a missão scalabriniana permanece atual e urgente. Continuar ao lado dos migrantes e refugiados significa afirmar, de forma concreta, que nenhuma vida humana pode ser descartada ou reduzida a números.
Que este Dia Mundial dos Refugiados nos ajude a renovar o compromisso com a acolhida, a oração e a solidariedade, para que cada pessoa em situação de deslocamento possa encontrar não apenas um lugar seguro, mas também a possibilidade real de viver, sonhar e recomeçar com dignidade.
Por Amanda Almeida, do Serviço de Comunicação








