No Domingo de Ramos, Jesus não está esperando que Deus envie anjos armados para expulsar Pilatos. Jesus acredita que o Reino de Deus já chegou, mas ele é “colaborativo”. Deus só agirá quando os seres humanos começarem a agir com justiça. A entrada em Jerusalém é o convite de Jesus para que o povo tome posse do Reino através da não-violência ativa.
Para falar de Domingo de Ramos sob a ótica de John Dominic Crossan precisamos deixar de lado a visão puramente devocional e entrar no campo da teologia política e histórica. Crossan propõe uma leitura fascinante: o Domingo de Ramos não foi apenas uma celebração religiosa, mas uma contramanifestação política planejada. A política de Jesus não era sobre como governar o mundo, mas sobre como ser humano no mundo.
As Duas Procissões
Crossan e seu colega Marcus Borg, no livro “A Última Semana”, defendem que naquela tarde de primavera em Jerusalém, ocorreram duas procissões simultâneas que representavam visões de mundo opostas:
- A Procissão Imperial Romana: Pelo lado Oeste da cidade, entrava Pôncio Pilatos com o poderio militar de Roma. Cavalos de guerra, armaduras brilhantes, estandartes de ouro e o som de tambores. Era uma demonstração de “Paz através da Vitória” (a Pax Romana), baseada na força e na dominação.
- A Procissão de Jesus: Pelo lado Leste (Monte das Oliveiras), entrava Jesus. Em vez de um cavalo de guerra, um jumentinho (símbolo de paz e camponês). Em vez de soldados, camponeses pobres. Em vez de armas, ramos. Era a demonstração da “Paz através da Justiça” (o Reino de Deus).
O Jumentinho como Sátira Política
Para Crossan, Jesus não escolheu o jumento por acaso ou apenas por “humildade” abstrata. Foi uma ação simbólica deliberada para evocar a profecia de Zacarias (9,9-10).
- Zacarias prometia um rei que “destruiria os carros de guerra” e “falaria de paz às nações”.
- Ao cavalgar um jumento, Jesus estava fazendo uma paródia ou uma sátira da entrada triunfal de Pilatos. Ele estava dizendo: “O Reino de Deus não se parece com o Império de Roma”.
A Teologia da Não-Violência
Crossan enfatiza que o Domingo de Ramos é o manifesto de Jesus contra o imperialismo.
- Enquanto Roma exigia submissão através do medo, Jesus propunha uma resistência baseada na comunhão, no amor e na não-violência.
- Os ramos e mantos no chão não eram apenas enfeites, eram atos de lealdade a um “outro rei” que desafiava o sistema econômico e militar opressor da época.
A visão de Crossan aprofunda o fato de que o Cristianismo das origens era um movimento de contracultura. Se o imperialismo atual se baseia na segurança nacional, violência, guerra e no fechamento de fronteiras para proteger o capital, a entrada de Jesus em Jerusalém — montado em um símbolo de paz e cercado por excluídos — é o maior “pesadelo” logístico e ideológico desse sistema. Para as Scalabrinianas, viver essa visão significa entender que o cuidado pastoral aos migrantes e refugiados não é apenas “caridade”, mas um ato político de profecia e resistência contra um império que prefere que os migrantes e refugiados sejam invisíveis ou descartáveis.
Por Wellington Barros, Doutor em Teologia













