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O Sábado Santo: entre o silêncio e a fronteira

O calendário litúrgico da Igreja nos reserva um dia de estranha quietude. O Sábado Santo é, por excelência, o dia da ausência, do vazio e do luto. A dor lancinante da Sexta-feira da Paixão já passou, mas a explosão de vida do Domingo de Páscoa ainda não chegou.

José Antonio Pagola sempre nos convida a resgatar a humanidade de Jesus e daqueles que o cercavam. Para ele, o Sábado Santo não deve ser “atropelado” pela nossa pressa de chegar logo à alegria da Ressurreição. É preciso saber habitar o vazio.

O Sábado Santo representa a noite escura da fé. É o dia em que os discípulos estão trancados por medo, as mulheres choram a perda do Mestre e Deus parece mergulhado em um silêncio absoluto. Pagola nos ensina que a fé autêntica não ignora as crises, as dúvidas ou o luto; pelo contrário, a fé é a capacidade de permanecer no escuro esperando contra toda a esperança. No silêncio do sepulcro, a vida não foi destruída; ela está recolhida como uma semente sob a terra, preparando-se misteriosamente para romper a pedra.

Se a leitura de Pagola nos interioriza, o carisma das Scalabrinianas nos lança para as periferias do mundo. Dedicadas ao cuidado e à defesa dos migrantes e refugiados, as Irmãs leem o mistério pascal através dos pés daqueles que caminham em busca de dignidade.

Para a mística scalabriniana, o Sábado Santo não é apenas um dia no ano, mas a realidade cotidiana de milhões de pessoas. Se a Sexta-feira Santa é a dor das travessias perigosas, dos naufrágios e da violência nas fronteiras, o Sábado Santo é o angustiante “silêncio” do migrante e do refugiado. É o tempo de espera em um campo de detenção, a invisibilidade social de quem não tem documentos, a incerteza de quem deixou tudo para trás e ainda não sabe se encontrará uma nova vida. É a solidão de estar suspenso entre o passado destruído e um futuro incerto.

As religiosas, ao permanecerem junto a esses “sepulcros” modernos da sociedade, imitam a postura de Maria e das santas mulheres: elas não fogem da dor do outro. Sua presença acolhedora é a prova de que ninguém deve ser deixado sozinho em seu sábado de solidão.

Este dia nos ensina que Deus também está presente no silêncio, no sofrimento e naquilo que o mundo descarta ou esconde nos sepulcros da história. A pedagogia desse dia nos quer ajudar a aprender a suportar as nossas próprias dores e as do mundo sem buscar anestésicos rápidos ou respostas fáceis, confiando que Deus age no oculto. Romper a indiferença e nos fazermos presentes na vida daqueles que vivem o “Sábado Santo” da exclusão, sendo nós mesmos os primeiros sinais da madrugada pascal que há de vir. Que saibamos guardar o silêncio deste dia não como quem desiste, mas como quem espera ativamente a vida que sempre vence a morte.

Por Wellington Barros, Doutor em Teologia

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