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Permanecer: o verbo das mulheres e das Scalabrinianas

Jesus não morreu porque Deus queria que ele sofresse como prova do Seu amor! Essa é a visão teológica tradicional e em grande parte já superada, pois, não combina com o próprio Deus revelado em Jesus de Nazaré cheio em misericórdia e não exigente de sacrifícios. Segundo José Antônio Pagola, a cruz não foi um “acerto de contas” exigida por um Deus vingativo, mas o desfecho de uma vida dedicada a introduzir compaixão no mundo: Jesus foi crucificado por sua fidelidade ao Reino de Deus e por sua defesa dos excluídos. A cruz é o selo de uma vida que incomodou as estruturas de poder.

Pagola enfatiza que na cruz de Jesus, Deus está “passando” para o lado das vítimas. Deus não olha a dor de longe; Ele a habita. Na crucificação, Deus se identifica com todos os “vencidos” da história. A cruz nos diz que Deus está onde o ser humano sofre, não onde o ser humano domina.

Neste cenário de abandono, onde o medo e a frustração silenciaram os discípulos, emerge a fidelidade profética das mulheres. Enquanto o grupo dos Doze se dispersa diante do fracasso aparente, elas permanecem. Segundo a leitura de Pagola, figuras como Maria, a Mãe de Jesus, Maria Madalena, Maria (mãe de Tiago) e Salomé — as discípulas que o seguiam desde a Galileia — oferecem a Jesus a forma mais radical de solidariedade: a presença incondicional. Elas não ocupam o lugar de espectadoras passivas de um suplício; elas ‘habitam’ a agonia do Calvário com um olhar de compaixão ativa, recusando-se a abandonar o Crucificado à solidão. Para Pagola, esse grupo feminino é o verdadeiro elo que impede que a memória de Jesus se apague no horror da execução, transmutando o silêncio do abandono em um testemunho de amor que resiste à morte.

A salvação na cruz, não vem da “quantidade de sangue” e nem do “objeto de tortura e morte”, mas da “qualidade do amor”. É o amor levado ao extremo, sem recuar diante da morte. A cruz salva porque abre um caminho de esperança onde parecia haver apenas fracasso. Ela mostra que o ódio não tem a última palavra se houver alguém disposto a amar até o fim.

A crucificação é o grito de Deus contra todos os que crucificam seus irmãos. Olhar para o crucificado obriga o cristão a olhar para os “novos crucificados”. A cruz é um julgamento sobre a indiferença do mundo. Este sentido é vital para os serviços realizados pelas Scalabrinianas, a cruz de Cristo motiva o “basta” contra a xenofobia, o tráfico humano e a violação de direitos fundamentais. E é aqui que reside o sentido da presença das Scalabrinianas em muitas fronteiras ou periferias existenciais: elas não levam Deus ao migrante; elas o encontram lá, sofrendo na carne de quem é rejeitado e crucificado pela indiferença. A salvação não vem do sofrimento em si, mas do amor que se mantém fiel apesar do sofrimento. As Scalabrinianas encarnam esse amor ao permanecerem em lugares de conflito e miséria, transformando a “paixão” em “passagem” (Páscoa).

Seguir Jesus é aprender a olhar o mundo com seus olhos de compaixão, reconhecendo que em cada “paixão” humana, há uma promessa de vida que insiste em brotar. Deus não é o espectador da dor, mas o seu cúmplice na resistência. Na cruz, Jesus grita por todos os que não têm voz. Isso significa que servir ao migrante é fazer uma “liturgia” viva, cuidando das chagas do próprio Deus. Ao pé da cruz, as Scalabrinianas não apenas observam, mas permanecem, assim como as mulheres que permaneceram ao pé da cruz quando todos fugiram, fazendo da dor, missão, e do testemunho, a esperança de que em cada “paixão” humana há uma promessa de vida que teima em brotar.

Por Wellington Barros, Doutor em Teologia

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