O Dia das Mães, sob o prisma do carisma das Irmãs Missionárias de São Carlos Borromeo – Scalabrinianas –, despoja-se das molduras comerciais para revestir-se de uma mística profunda: a da itinerância. Para quem vive o mandato de João Batista Scalabrini, a maternidade não é um porto estático, mas um navio em alto-mar; não é um jardim cercado, mas a semente que o vento da necessidade espalha por solos estrangeiros.
A Mãe como Pátria Espiritual
No contexto da mobilidade humana, a figura materna transfigura-se. Quando o migrante atravessa a fronteira, ele deixa para trás a terra, o idioma e a segurança. O que resta, muitas vezes apenas na memória ou na voz que atravessa o telefone, é a mãe. Na teologia scalabriniana, a mãe é a “pátria do coração”. Ela é o único território que o imigrante nunca abandona verdadeiramente, pois ela se torna a guardiã da identidade e a promessa de que o retorno — real ou espiritual — é possível.
O “Sim” no Deserto e na Estação
Celebrar esta data na perspectiva scalabriniana é lançar um olhar de reverência sobre a mulher que se torna migrante por amor. É a mãe que, em um ato de sacrifício pascal, aceita a própria invisibilidade social em terras estranhas para que seus filhos conquistem o pão e o futuro.
Essa maternidade é marcada por duas faces dolorosas e proféticas:
A mãe que caminha quilômetros, enfrenta o mar ou o deserto, carregando no colo a esperança da sobrevivência. Ela é o ícone vivo da Fuga para o Egito, atualizando o sofrimento de Maria a cada barreira alfandegária.
A mãe que fica no país de origem, separada pelo abismo da distância, mas que se faz presente através das remessas de amor e do cuidado transnacional. É uma maternidade que desafia as leis da física, amando através dos oceanos.
A Maternidade Espiritual da Missionária
As Irmãs Scalabrinianas, ao abdicarem da maternidade biológica, assumem uma maternidade universal e evangélica. Nas casas de acolhida, nos portos e nos centros de promoção humana, elas se tornam o “colo de Deus” para quem está órfão de pátria.
Essa missão é uma extensão do cuidado mariano. Maria, a migrante, ensina que ser mãe é estar de pé junto à cruz do exilado, do marginalizado e daquele que não tem onde reclinar a cabeça. A Scalabriniana olha para o migrante e não vê um número estatístico, mas um filho que o mundo tentou deserdar.
Uma Celebração de Fronteiras Abertas
O Dia das Mães na perspectiva scalabriniana é, em última análise, um convite à solidariedade global. É o reconhecimento de que o mundo é uma única família e que a dor de uma mãe que perde seu filho para o tráfico humano ou para o naufrágio é a dor de toda a humanidade.
Neste dia, o artigo que a vida escreve não é feito de tinta, mas de passos. Honramos as mães que fazem da estrada seu altar e das irmãs que fazem da acolhida o seu ventre espiritual. Que o mundo aprenda com elas que o amor não conhece passaportes e que a única língua que todos os filhos compreendem é a da ternura que protege e liberta.
Por Wellington Barros, do Serviço de Comunicação












