O contrabando de migrantes pelas principais rotas marítimas para a Europa gerou pagamentos estimados entre US$ 388 milhões e US$ 509 milhões em 2025. Os dados foram divulgados em uma pesquisa Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), lançada em 21 de outubro, que atualizou as estimativas sobre a dimensão do fenômeno e trouxe dados sobre os aspectos financeiros das redes envolvidas nessa atividade criminosa.
Segundo o UNODC, entre 190 mil e 209 mil pessoas foram alvo de crimes de contrabando de migrantes nas quatro principais rotas marítimas para a Europa em 2025: Mediterrâneo Central, Mediterrâneo Oriental, Mediterrâneo Ocidental e Atlântico Noroeste Africano. Dessas, o Mediterrâneo Central concentra o maior número de registros, chegando a até 100 mil vítimas.
A pesquisa, intitulada “Typology of the Financial Aspects of Smuggling of Migrants”, analisa como os recursos financeiros circulam nas redes de contrabando de migrantes, desde a cobrança das pessoas até os pagamentos a intermediários, a corrupção, a lavagem de dinheiro e o reinvestimento dos lucros.
De acordo com o documento, os valores cobrados variam conforme a rota, a nacionalidade, o país de partida e as condições da viagem, com diferenças significativas entre as rotas. No Mediterrâneo Central, 45% dos entrevistados relataram ter pago mais de US$ 7.500. No Mediterrâneo Ocidental, 52% pagaram entre US$ 1.000 e US$ 5.000. Já no Atlântico Noroeste Africano, 57% desembolsaram menos de US$ 1.000. No Mediterrâneo Oriental, essa foi a faixa de pagamento indicada por 41% dos entrevistados.
O dinheiro em espécie é o principal meio de pagamento identificado: 75% dos migrantes entrevistados em rotas marítimas para a Europa, em 2025, afirmaram ter pago dessa forma. Além disso, 57% disseram ter quitado o valor integral antes da partida, o que pode aumentar a vulnerabilidade de pessoas que já assumem dívidas ou comprometem seus recursos antes de iniciar a viagem.
Rastreamento financeiro e combate às redes criminosas
O estudo chama a atenção para a dificuldade de rastrear os recursos obtidos com o contrabando de migrantes. Embora as redes utilizem dinheiro em espécie, transferências bancárias, serviços de remessa e outros mecanismos financeiros, menos de 5% das investigações sobre esse crime resultam em uma investigação por lavagem de dinheiro, segundo os dados apresentados no relatório.
Em um caso analisado pela pesquisa, as autoridades identificaram aproximadamente US$ 132,5 milhões em receitas ilícitas relacionadas ao contrabando de migrantes do Chifre da África, passando pelo Norte da África em direção à Europa, e à extorsão dessas pessoas.
Diante desse cenário, o UNODC destaca a importância de investigar não apenas os responsáveis diretamente pelo transporte, mas também os fluxos financeiros, os intermediários e os beneficiários dos lucros. O rastreamento de ativos e a cooperação internacional são apontados pela organização como medidas importantes para enfraquecer as estruturas que sustentam essas redes.
Os dados apresentados pela pesquisa também reforçam a necessidade de considerar a vulnerabilidade das pessoas em mobilidade, que podem enfrentar extorsão, sequestro, exigências de resgate, endividamento e outras formas de exploração durante o percurso.
A pesquisa integra os esforços do UNODC para ampliar o conhecimento sobre o funcionamento financeiro do contrabando de migrantes. O próprio relatório ressalta, contudo, que ainda há limitações na disponibilidade de dados e que as estimativas não representam um panorama estatístico completo de todas as rotas e regiões do mundo.
Por Amanda Almeida, do Serviço de Comunicação













