A situação vivida atualmente pela Venezuela continua produzindo sofrimento, deslocamentos e rupturas profundas na vida de milhares de famílias. Mesmo diante de acontecimentos políticos recentes, como a captura de Nicolás Maduro, não se observa, até o momento, qualquer mudança estrutural capaz de assegurar dignidade, estabilidade ou proteção à população. A euforia inicial vivida por parte dos venezuelanos rapidamente se mistura ao medo, à insegurança e à incerteza quanto ao futuro, elementos que seguem marcando o cotidiano de quem permanece no país e de quem busca proteção fora dele.
À luz do carisma das Irmãs Scalabrinianas, o Centro de Atendimento ao Migrante (CAM), em Caxias do Sul/RS, acompanha de forma contínua a realidade da comunidade venezuelana na Serra Gaúcha. Inspiradas pela espiritualidade do “ver o migrante não como número, mas como pessoa”, as Irmãs exercem uma presença pastoral que acolhe, escuta e caminha junto. O atendimento realizado não se limita à documentação ou aos encaminhamentos institucionais, mas se expressa como cuidado integral, reconhecendo o sofrimento do deslocamento forçado como ferida humana, social e espiritual, como também as violências reais e as simbólicas.
Nas escutas realizadas pelo CAM, torna-se evidente que o deslocamento venezuelano se insere no que a literatura internacional reconhece como crise prolongada de mobilidade humana, marcada pela ausência de soluções duráveis e pela fragilidade das respostas estatais (ACNUR, 2023). Ainda que fatos políticos despertem expectativas legítimas de mudança, a realidade concreta revela que não há retorno seguro possível sem garantias efetivas de direitos, proteção e reconstrução social. Assim, o deslocamento não se encerra na travessia da fronteira, mas se prolonga na experiência cotidiana da sobrevivência.
Na Serra Gaúcha, as demandas da população venezuelana permanecem urgentes e complexas. O acesso à regularização da condição migratória, ao trabalho digno, à moradia, à educação e à saúde compõe um conjunto de necessidades que exigem respostas articuladas. O CAM atua politicamente nesse território ao provocar o diálogo entre poder público, sociedade civil e setor privado, compreendendo que a integração local não é concessão, mas direito, e que o acolhimento verdadeiro só se concretiza quando há corresponsabilidade social (BETTS; COLLIER, 2017).
Essa atuação pastoral é também profundamente política, no sentido mais nobre do termo. Ao afirmar direitos, denunciar ausências e fortalecer redes de proteção, as Irmãs Scalabrinianas reafirmam que a migração não pode ser tratada como problema, mas como expressão de desigualdades estruturais globais. Conforme aponta Sayad (1998), o migrante revela as contradições das sociedades que o recebem, convocando-as a rever seus limites morais, jurídicos e humanos. Nesse sentido, o trabalho do CAM se torna sinal profético em meio às tensões do tempo presente.
Entre Caxias e Caracas, o CAM permanece como espaço de travessia e esperança. Em meio à euforia que não se sustenta na plenitude, ao medo que paralisa e à incerteza que fere, a missão scalabriniana insiste em anunciar que nenhum ser humano é ilegal, descartável ou invisível. Caminhar com os migrantes venezuelanos é, hoje, um ato de fé encarnada, compromisso político e escolha evangélica. É afirmar, diariamente, que a esperança não nasce da promessa imediata, mas da presença fiel que não abandona.
Por Adriano Pistorelo, do Serviço de Comunicação











