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Leão XIV nas Ilhas Canárias: “A dignidade humana não tem passaporte e não perde valor ao cruzar uma fronteira”

Aconteceu nesta quinta-feira, 11, o encontro do Papa Leão XIV com as organizações de recepção de migrantes nas Ilhas Canárias. O encontro faz parte das atividades previstas na última etapa da Viagem Apostólica do Papa à Espanha, que termina na próxima sexta-feira, 12.

O encontro aconteceu no Porto de Arguineguín, em Las Palmas de Gran Canaria, local que se tornou palco de massivas chegadas de migrantes que se arriscam na perigosa travessia do Oceano Atlântico. De acordo com dados do projeto Migrantes Desaparecidos da Organização Internacional para as Migrações (OIM), mais de 6.600 pessoas morreram na rota do Oceano Atlântico até as Ilhas Canárias desde 2014. Apenas em 2026, 166 fatalidades foram registradas na região.

Antes do discurso do Papa, foram apresentados relatos de migrantes e pessoas que trabalham apoiando os migrantes que chegam às Ilhas Canárias. “Hoje, à beira-mar, a Palavra torna-se concreta: tantas vidas feridas chegam aqui, despojadas de quase tudo, mas nunca da sua dignidade. Aqui, o Evangelho nos tira da posição confortável de espectadores e nos coloca diante do nosso irmão ou irmã que chega”, destacou o Papa no início do discurso.

Leão XIV destacou que a ilha, “pequena em tamanho, mas vasta em humanidade”, viu milhares de pessoas chegarem fragilizadas, recordando os resgates de migrantes no mar e a localização de corpos sem vida. “O Sucessor de Pedro não pode virar as costas para estes cais. A Igreja não pode virar as costas para estas águas nem para qualquer lugar onde a fome, a sede, a violência, o medo ou o exílio continuam a ferir a dignidade humana. Os discípulos de Jesus não podem considerar estranho o clamor daqueles que clamam na noite”, afirmou.

A partir da linguagem bíblica, o Papa recordou que o mar pode ser uma imagem de ameaça e caos, onde se encontram Leviatã e Raabe. Ele ressaltou que, hoje, outros monstros espreitam os mares: “máfias que traficam com o desespero, traficantes que escravizam mulheres e crianças, e a indiferença de muitos que permitem que os pobres sejam engolidos pela exploração ou pelo esquecimento.”

O Papa agradeceu pelos testemunhos apresentados no início do encontro, destacando o relato sobre o trabalho da Cáritas e das paróquias. “Quando o migrante deixa de ser “apenas mais um”, deixa de ser uma categoria e uma estatística. Só então compreendemos que aquela menina poderia ser nossa filha, aqueles rostos parte da nossa família; e então, nossa consciência fica sem desculpas”, sublinhou o Pontífice.

Se dirigindo aos migrantes o Papa Leão XIV ressaltou o reconhecimento de sua dignidade, destacando que eles são mais que números. “Vocês são pessoas com famílias e lares deixados para trás; com sonhos que ninguém tem o direito de desconsiderar”, afirmou.

O Papa destacou que as tragédias da migração devem se transformar em um momento de reflexão, tanto para as nações de origem, quanto para os países de trânsito e de destino, especialmente os europeus, destacando que não se pode “proclamar a dignidade humana e se acostumar a ver o Mediterrâneo e o Atlântico como cemitérios sem lápides.”

“Não basta gerir as chegadas, divulgar estatísticas, reforçar as fronteiras ou lamentar as mortes depois de já terem ocorrido. Cada barco que chega traz não só migrantes; traz consigo uma pergunta: que tipo de mundo construímos se tantos dos nossos irmãos e irmãs têm de arriscar a vida em busca de sobrevivência?”, ressaltou o Papa.

Ele destacou que a dignidade humana exige vias legais e seguras, com processos sérios de acolhimento e integração, bem como proteção efetiva para as vítimas de exploração e tráfico humano e políticas que permitam a cada pessoa viver com dignidade em sua própria terra.

“Embora exista o direito de buscar refúgio quando a vida está ameaçada, existe também o direito de não ter que migrar: o direito de permanecer em sua própria casa sem fome, sem guerra, sem perseguição, sem violência, sem que a terra se torne inabitável, sem que a corrupção roube o pão dos pobres, sem que as armas destruam o futuro das crianças”, ressaltou o Papa, que sublinhou que “a dignidade humana não tem passaporte e não perde valor ao cruzar uma fronteira.”

A Viagem Apostólica do Papa Leão XIV à Espanha é a quarta de seu pontificado e passou por Madrid e Barcelona, onde inaugurou a Torre de Jesus Cristo na Basílica da Sagrada Família, momento que também recordou o centenário da morte de Antoni Gaudí, arquiteto da Basílica. A visita será encerrada na sexta-feira, 12, quando o Papa também visitará Tenerife, onde se encontrará com migrantes e organizações de integração dos migrantes.

Ilhas Canárias: quase 20.000 chegadas de migrantes em 2025
De acordo com dados do Ministério do Interior da Espanha, durante o ano de 2025 pelo menos 17.788 migrantes chegaram às Ilhas Canárias por via marítima, de um total de 36.775 que chegaram ao país. O número representou uma queda de 62% em relação a 2024, quando foram registradas 46.843 chegadas apenas no arquipélago, de 64.019 que chegaram em território espanhol.

Segundo o órgão, desde o início de 2026 já foram registradas 2.499 chegadas de migrantes às Ilhas Canárias, um aumento de 18% em relação ao mesmo período do ano passado, quando 2.114 migrantes chegaram ao arquipélago. No total, a Espanha já registrou a chegada de 10.224 migrantes desde janeiro, sendo 7.858 por via marítima.

Por Amanda Almeida, do Serviço de Comunicação

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