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Mês Missionário: a missão não pode servir a quem a realiza


O século passado representou uma guinada em vários aspectos da vida da Igreja, o Concílio Vaticano II (1962-1965) é a grande síntese dessa guinada. Não foram poucos os âmbitos eclesiais que romperam com antigos esquemas na busca de diálogo com o mundo moderno. Não foi diferente com a “missiologia”, o decreto Ad Gentes (1965) do Vaticano II afirma que a Igreja peregrina é, por sua natureza, missionária (AG 2). A missão deixou de ser uma tarefa entre outras e passou a definir a própria identidade da Igreja e de todo batizado. Depois do Concílio, a reflexão se aprofundou em três documentos que ainda hoje são referências: Evangelii Nuntiandi (Paulo VI, 1975), que diz que evangelizar é a vocação própria da Igreja, sua identidade mais profunda (EN 14). Muitos o consideram o texto mais importante sobre o tema; Redemptoris Missio (João Paulo II, 1990), que defendeu a permanente validade da missão ad gentes num tempo em que ela era questionada; Evangelii Gaudium (Francisco, 2013), que propõe a “Igreja em saída” e a conversão missionária das estruturas.

Por que a missão vem primeiro

Colocar a missão em primeiro lugar é deixar que o anúncio de Cristo ordene todo o resto: a agenda, o uso dos recursos, o tempo de cada um. Outubro, o Mês Missionário, existe para isso. É o momento em que a Igreja interrompe a rotina e se pergunta para quem, afinal, ela existe.

Não se trata de mais uma atividade no calendário. A missão não é um departamento da Igreja, mas a sua razão de ser. Quando ela fica em segundo plano, a comunidade se volta para si mesma, cuida da própria estrutura e esquece quem ainda está do lado de fora.

A última ordem de Jesus aos discípulos não foi organizar-se, mas partir: “Ide e fazei discípulos de todas as nações” (Mt 28,19). A Igreja nasce em movimento. O Papa Francisco resumiu isso na imagem de uma “Igreja em saída”, que prefere ficar acidentada por ir às ruas a adoecer fechada em si mesma (Evangelii Gaudium, 49). Uma comunidade unida que não anuncia perdeu o sentido da própria unidade.

A missão acima das vaidades

O maior obstáculo à missão raramente vem de fora. Vem de dentro, e tem um nome antigo: vaidade. “Vaidade das vaidades, tudo é vaidade”, diz o Eclesiastes (Ecl 1,2). Tudo o que fazemos para nós mesmos, por mais religioso que pareça, passa e se esvazia. A vaidade tem muitas formas na vida da Igreja: o protagonismo, quando o serviço se torna palco e o nome de quem serve brilha mais que o Evangelho; as disputas de poder, quando grupos, pastorais e movimentos competem por espaço, cargo e reconhecimento; o apego ao “sempre foi assim”, quando defendemos nossos costumes e nosso conforto em vez de abrir a porta a quem chega. Essas vaidades ganham rostos concretos em todos os estados de vida. Por isso merecem um olhar sincero, sem acusação, mas também sem disfarce.

Na vida religiosa consagrada, a tentação costuma vestir-se de zelo pela obra. A obras que nasceram como resposta às necessidades dos pobres podem, com o tempo, tornar-se território a defender: “minha pastoral”, “meu hospital”, “minha escola”, “minha comunidade”. O prestígio ou a fama passam a contar mais que o carisma que lhes deu origem, e estruturas são mantidas por segurança ou tradição. Quando uma transferência é recebida como ofensa e não como envio, algo da disponibilidade missionária já se perdeu. Quando a recusa por receber na comunidade um novo membro por gostos pessoais ou por dificuldades na convivência, nem se fala.

No clero, a vaidade assume com frequência a forma do clericalismo e do carreirismo, tantas vezes denunciados pelo Papa Francisco. O padre que concentra decisões, desconfia dos leigos e trata a paróquia como domínio próprio esquece que é pastor de um povo também chamado à missão. A liturgia pode virar palco para o estilo do celebrante, e as obras, monumentos a quem as fez.

Entre os leigos, nas pastorais e nos movimentos, o risco não é menor. Há quem se torne “dono” de um serviço e nunca passe o bastão; há grupos que disputam espaço, horário e fiéis como se fossem concorrentes, e não membros do mesmo corpo; há eventos grandiosos, com muita produção e pouca acolhida a quem chega pela primeira vez. E há uma vaidade própria do nosso tempo: medir a evangelização por curtidas e seguidores, transformando o testemunho em autopromoção.

Vistos em conjunto, esses rostos revelam um mesmo movimento: a missão deixa de ser fim e passa a ser meio. Ela começa a servir a quem a realiza (à sua imagem, ao seu conforto, à sua segurança, ao seu grupo), quando deveria ser o contrário. Nenhum estado de vida está imune, e o problema raramente é má vontade, quase sempre é um deslocamento lento e silencioso do centro. Por isso, o primeiro passo não é apontar o dedo, mas fazer um exame honesto: a quem, de fato, a minha missão está servindo?

O Papa Francisco chamou isso de “mundanidade espiritual”: buscar, sob aparência de piedade, a própria glória em vez da glória do Senhor (Evangelii Gaudium, 93). É uma tentação sutil justamente porque se veste de religião. Pode-se trabalhar muito na vida de fé e, ainda assim, trabalhar para si.

Colocar a missão em primeiro lugar é deixar que ela julgue nossas motivações. A pergunta deixa de ser “o que eu ganho com isso?” ou “quem vai reconhecer o que fiz?” e passa a ser “quem será alcançado pelo amor de Deus?”.

Servir, não ser servido

A missão cristã nasce desse esvaziamento. Por isso, São Paulo pede às comunidades que nada façam por rivalidade ou vanglória, mas que cada um considere os outros superiores a si (Fl 2,3). O missionário verdadeiro faz o bem em segredo, como pede Jesus (Mt 6,1-4), e ao final do dia diz com simplicidade: “Somos servos inúteis, fizemos o que devíamos fazer” (Lc 17,10). Essa liberdade é uma graça. Quem não precisa ser aplaudido pode ir a qualquer lugar, servir qualquer pessoa e recomeçar quantas vezes for preciso.

As vaidades passam, mas a missão permanece. No fim, ninguém será lembrado pelos cargos que ocupou ou pelos aplausos que recebeu, mas pelo amor que deixou passar através de si. Que este outubro, seja ocasião de diminuir um pouco para que Cristo cresça, e de colocar, enfim, a missão em primeiro lugar.
Por Wellington Barros pelo Serviço de Comunicação

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